terça-feira, 14 de junho de 2011


Breves delírios - Livro de Fernanda Valencise

A primeira vez foi como um vulcão entrando em atividade. Tudo fervilhava, movia-se, pulsava, queria sair como uma devastadora onda de magma. Não entendi a principio mas, aos poucos e sem que tomasse consciência...Explodi. Corri até a mesa do quarto onde deixava meus livros, canetas, lápis, documentos, lembranças. Havia uma foto em um porta-retrato, antiga e límpida. Olhei para ela rapidamente, desviei e busquei deixar a mão apanhar o que queria. Subitamente ela cresceu diante ds meus olhos como se todo o quarto fosse engolido. Uma máquina de escrever, anos 80, verde escura. Abri com desespero aquela tampa e vi cada letra em poucos dias transformar-se em centenas de folhas cheias de palavras cortantes e profundas. Precisava entender o que me aconteceu pois, nunca antes havia encostado um dedo na Olivett Letera que minha mãe deu-me de aniversário de dez anos. A essa altura já estava com onze, gostava de desenhar, conversava com paredes, o espelho do banheiro era meu amigo confidente e minha professora de português minha mais amada mestra. Chegou a quarta-feira, dia de sua aula e eu, ansiava por sua chegada ao mesmo tempo que sentia o coração palpitar de medo ou vergonha. Afinal, que delírio foi aquele? Havia passado todo meu tempo no quarto, olhos fincados nas teclas da maquinazinha que fez o vulcão acalmar e conter a destruição que seria se descesse a sua lava.
- O que me aconteceu? Perguntei a professora, ainda cheia de medo e de vergonha, afinal ela leria toda aquela bobagem que levei dias fazendo ao invés dos estudos de casa.
- Minha querida, você fez um livro; um belíssimo livro que precisa ser lido por mais pessoas. Entenda o que vou lhe dizer...Você não tem nada de errado...É apenas uma escritora.
Nada entendi com a profundidade que ela impôs naquelas palavras. Mas por ser um pedido dela comecei a ficar após as aulas para mostrar-lhe o que continuava fazendo. As palavras iam brotando e ela me ensinava o que eram pensamentos. Sempre achei que ficavam na cabeça e não valiam nada de material. Dez anos depois estava em minha noite de autógrafos, vendo pessoas como eu entrar na livraria e comprar meus pensamentos. "Não deviam ser trocados por dinheiro", confesso.
cropocéfalomaniaquísmo meu. Ponto, virgula, acento, assento aqui, aculá, em todos os cantos brancos dessa vida tem de haver um louco, um médico e um escritor.



Continua na próxima postagem ; )

Nenhum comentário:

Postar um comentário